Lançado como uma das grandes apostas do universo Marvel, o filme Thunderbolts surpreende por não entregar exatamente aquilo que o público esperava — e, para o psicólogo Rafael Schieber, isso é uma excelente notícia. Ao invés da fórmula tradicional repleta de ação desenfreada, humor frenético e heróis infalíveis, o longa mergulha em temas sombrios e emocionais, oferecendo algo raro em produções do gênero: humanidade.
“Thunderbolts me surpreendeu”, afirma Schieber, que foi ao cinema esperando apenas entretenimento escapista. “Por trás das explosões e missões suicidas, há um pano de fundo emocional denso, sombrio, dolorosamente humano. O filme fala de luto. De arrependimento. De gente que não sabe mais como se reconectar com a própria história.”
O filme rompe com o que ele chama de “heroísmo de plástico” e inaugura uma nova linguagem narrativa: uma cultura pop que não ignora mais a saúde mental como subtexto, mas a traz para o centro do roteiro. “Está todo mundo meio quebrado. E tudo bem”, reflete o psicólogo.
Para Schieber, Thunderbolts é parte de uma guinada mais ampla em Hollywood. Ele cita outros filmes que já vinham preparando esse terreno, como Frozen, onde Elsa representa alguém que reprime a dor para proteger os outros, e Encanto, que mergulha na psicodinâmica familiar e nos traumas herdados de geração para geração. “Mirabel, que nasce sem dom, simboliza o sujeito que rompe o ciclo — aquele que precisa confrontar o mal-estar coletivo para que algo novo possa nascer.”
O psicólogo também destaca Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças como um exemplo radical e profundo da elaboração da dor. “A premissa científica de apagar memórias dolorosas é apenas o ponto de partida. O filme nos mostra que não é possível apagar aquilo que nos formou. O amor perdido, o luto, a frustração… tudo isso nos constitui.”
Nesse contexto, Thunderbolts ganha um papel especial. Schieber observa que o cansaço do público com os filmes de super-heróis tradicionais tem aberto espaço para histórias com mais camadas, onde o protagonismo não está mais no poder de resolver tudo, mas na coragem de sustentar o que não tem solução imediata.
“É um deslocamento simbólico. Do herói invencível para o sujeito que convive com a dor, com a culpa, com o fracasso — e ainda assim busca se vincular. Isso, num mundo que nos recompensa pelo individualismo e pela frieza, é revolucionário.”
Um dos momentos mais marcantes para o psicólogo é a transformação simbólica do grupo de anti-heróis, inicialmente tratados como “descartáveis”. “Por meses, os próprios fãs diziam que esse era um filme desnecessário. Mas ao longo da história, vemos como esses personagens ganham densidade emocional e passam de esquecíveis para memoráveis quando reconhecem suas dores e oferecem apoio uns aos outros.”
Schieber enxerga nisso um valor terapêutico. “A psicanálise sempre ensinou que não existe elaboração sem linguagem. E que não se cura o que não se pode nomear. Ver filmes que falam abertamente de depressão, ansiedade, vazio, autossabotagem… é uma forma de dar nome ao que muitos vivem silenciosamente.”
Para ele, a cultura pop está reaprendendo a oferecer espelhos mais reais — e talvez até mais necessários. “Estamos reaprendendo a nos importar. Não para viver um grande épico de superação, mas para sustentar o que é difícil sem perder a capacidade de rir, de sentir, de se vincular. Porque, no fim das contas, é isso que nos salva: a coragem de continuar sentindo.”

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