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O Dilema da Interação no Novo Mercado Digital e o Impacto sobre Autistas

A economia contemporânea, sobretudo em sua vertente digital, estabeleceu uma nova gramática da relevância: visibilidade é moeda, engajamento é capital, e a capacidade de autopromoção se tornou critério tácito de competência. Dentro dessa lógica, ser notado é, muitas vezes, mais decisivo do que ser capacitado. Entretanto, o modelo atual de negócios digitais, centrado em redes sociais, parcerias estratégicas e performance interpessoal, impõe obstáculos sistêmicos a uma parcela silenciosamente excluída: os indivíduos autistas.

Mais que uma questão de inclusão, trata-se de um dilema neurocognitivo. Para muitos autistas, a simples ideia de iniciar contato, solicitar apoio ou gravar um vídeo representa um custo emocional elevado. Isso não se limita àqueles com diagnóstico clínico formal. Pessoas com traços subclínicos, que mantêm funcionalidade mas compartilham os desafios sensoriais e sociais do espectro, também enfrentam entraves significativos em um mercado que recompensa a sociabilidade performática.

Nesse cenário, o Projeto RG-TEA do CPAH busca entendimento sobre a urgência dessa discussão. Em uma breve convocatória pública, o projeto reuniu depoimentos de autistas que vivem, na prática, os paradoxos da era digital. Os relatos revelam não apenas dificuldades, mas caminhos possíveis.

Giovanna Cariry, influencer autista nível 2 de suporte com mais de dois milhões de seguidores, compartilha:
“No início, eu ficava completamente travada. Até hoje, quando fico ansiosa querendo fazer o vídeo perfeito, ainda me atrapalho um pouco. Mas com constância e autenticidade, a melhora vem naturalmente.”

Já o professor Flávio Nunes, médico veterinário e psicanalista, aponta para uma lacuna científica e afetiva:
“Ainda faltam estudos sobre o autismo na fase adulta. O esforço para se adequar gera um desgaste psicoemocional invisível. Precisamos de empatia, respeito e compaixão.”

Jennifer de Paula, mãe atípica e profissional de marketing, reforça a necessidade de adaptação sem imposição:
“O objetivo não é forçar a exposição, mas ajudar cada autista a encontrar sua forma de se comunicar nesse novo mercado.”

Adiel Silva, físico e Mestre em Psicologia, faz um alerta sobre o risco emocional do excesso de visibilidade:
“Mostrar a própria voz é importante, mas deve haver equilíbrio entre a transparência e a preservação emocional.”

Por fim, o jornalista Luiz Ricardo Linch propõe uma analogia contundente:
“Se a Internet é uma ágora digital, precisamos definir critérios justos de participação para os autistas, evitando o ostracismo digital disfarçado de meritocracia.”

A análise aqui proposta não é apenas diagnóstica, mas prescritiva. O modelo atual de mercado precisa ser revisto sob a ótica da neurodiversidade. A performance social não pode ser a única porta de entrada para o trabalho, a colaboração ou a validação intelectual. A acessibilidade digital deve incluir não apenas rampas virtuais, mas também protocolos de comunicação que respeitem ritmos cognitivos distintos.

O Projeto RG-TEA continua a ampliar esse debate, reafirmando seu compromisso com a valorização do indivíduo autista não como exceção, mas como parte legítima e necessária de uma sociedade que se pretende realmente inclusiva.

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