quarta-feira , 19 agosto 2026
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Rolex estuda certificado digital para reforçar autenticidade

Renan Bastos explica como proposta pode afetar compra e venda de relógios de luxo no mercado secundário

Comprar um Rolex usado pode envolver muito mais do que conferir se o relógio é verdadeiro. Caixa, cartão, número de série, procedência e histórico de manutenção também pesam na avaliação de uma peça e, dependendo do modelo, podem influenciar inclusive seu valor no mercado secundário.

Agora, a própria fabricante suíça estuda maneiras de tornar parte desse processo mais digital.

Um pedido de patente apresentado pela Rolex descreve um sistema de certificado eletrônico associado ao relógio, capaz de reunir informações sobre a peça e facilitar a comunicação entre proprietário, revendedores e a rede de serviços da marca. Entre as possibilidades descritas estão recursos como QR code ou NFC, tecnologia que permite a comunicação por aproximação. A documentação da patente também aborda certificados digitais e mecanismos voltados à rastreabilidade.

Na prática, a proposta chama atenção para um problema conhecido de quem compra relógios de luxo fora das boutiques oficiais: autenticar a peça é apenas uma parte da análise. A documentação que acompanha o relógio também precisa ser verificada.

A Rolex já utiliza cartões com NFC em parte de sua estrutura de pós-venda. No Rolex Service Card, por exemplo, informações relacionadas ao relógio podem ser acessadas aproximando o cartão de um smartphone compatível.

Para Renan Bastos, especialista no mercado da alta relojoaria e CEO da RC Crown, uma evolução desse sistema poderia ter consequências especialmente relevantes no mercado de peças usadas.

“Quem trabalha com mercado secundário de relógio sabe onde está o problema de verdade. Relógio falso colando entre um Rolex e um Patek genuíno é raro — a mecânica, o acabamento, o peso, tudo isso denuncia a cópia rápido. O que engana é o papel. Cartão de garantia falso, caixa falsa, certificado falsificado. Isso a gente não verifica sozinho, depende da marca confirmar.

Por isso essa patente da Rolex importa mais do que parece à primeira vista. Não é sobre colocar um chip mágico no relógio. É sobre criar um histórico digital que a marca controla e que ninguém fora dela consegue fabricar. Cartão de garantia hoje é o elo mais fácil de falsificar porque é papel com um selo. Transformar isso em um sistema com dado verificável na origem, direto com a Rolex, muda o jogo do mercado gray e do pré-owned.

A Rolex já mudou o cartão recentemente para um modelo mais difícil de copiar. A Patek também tem investido em elementos de segurança mais sofisticados nos papéis novos. A direção é clara: as marcas entenderam que autenticação não se resolve mais só na peça, se resolve no par peça-documento, verificado pela própria manufatura.

Se esse sistema sair do papel — literalmente —, quem compra e quem vende relógio de luxo ganha uma camada de segurança que hoje simplesmente não existe. Isso reduz fraude, protege o comprador final e valoriza o mercado secundário como um todo, porque tira poder de quem vive de documento falso”, diz Renan Bastos.

Por que a documentação importa tanto?

No mercado de alta relojoaria, dois exemplares da mesma referência nem sempre possuem o mesmo valor.

Ano, estado de conservação, histórico de manutenção e presença da caixa e dos documentos originais estão entre os elementos observados em uma negociação. É daí que vem a expressão “full set”, utilizada no setor para peças acompanhadas de seu conjunto de acessórios e documentação.

O problema é que o crescimento e a sofisticação do mercado de relógios usados também aumentaram a importância de comprovar a procedência dessas informações.

Um sistema digital vinculado à própria fabricante poderia acrescentar uma nova camada de verificação ao processo, principalmente se permitir consultar informações relevantes sobre aquele exemplar sem depender exclusivamente dos documentos físicos apresentados pelo vendedor.

É nesse ponto que a patente desperta interesse entre profissionais do setor.

Blockchain entra na discussão

A possibilidade de utilização de blockchain também apareceu na cobertura internacional sobre o pedido. A proposta descrita prevê mecanismos para associar um relógio a um certificado digital e registrar informações relacionadas à propriedade e à autenticidade.

Para o consumidor, a tecnologia utilizada nos bastidores talvez seja menos importante do que o resultado prático: conseguir verificar com maior segurança se as informações apresentadas sobre determinada peça correspondem aos registros associados a ela.

Renan Bastos avalia que um sistema descentralizado poderia ampliar ainda mais essa possibilidade no futuro.

“Se a Rolex migrar para blockchain de verdade, o mercado secundário ganha uma camada que hoje só existe em teoria. Não seria mais ‘a Rolex confirma que o relógio é original’, seria ‘qualquer um confere isso sem precisar pedir permissão a ninguém’. É a diferença entre confiar na palavra da marca e confiar em um registro que não pode ser alterado. Ainda não é isso que a patente entrega, mas é a direção óbvia se a Rolex quiser resolver o problema até o fim”, comenta Renan.

Patente não significa lançamento

Apesar da repercussão, existe uma diferença importante entre registrar uma tecnologia e colocá-la no mercado.

A existência de um pedido de patente não significa que a Rolex vá necessariamente lançar o sistema, tampouco estabelece quando uma eventual implementação aconteceria. Até o momento, não há anúncio público da fabricante estabelecendo um cronograma de lançamento para um novo certificado nesses moldes.

Por isso, o impacto sobre o mercado secundário ainda está no campo das possibilidades.

O movimento, porém, coloca em evidência uma discussão que tende a ganhar importância à medida que relógios de luxo passam de um proprietário para outro: em peças que podem valer dezenas ou centenas de milhares de dólares, comprovar a história do relógio pode se tornar quase tão importante quanto autenticar o próprio relógio.

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