quinta-feira , 30 abril 2026
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Professor analisa impactos de ataque ao Irã na economia global


Neste domingo, o cenário internacional foi impactado pela confirmação do assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e a subsequente formação de um órgão colegiado para a liderança interina do país. Em meio a novos bombardeios e à confirmação da morte de soldados americanos, o professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ, Carlos Eduardo Martins, analisa as implicações geopolíticas e econômicas dessa escalada.

Confira a entrevista feita à repórter da Rádio Nacional, Daniela Longuinho:

Professor, a operação militar dos Estados Unidos e de Israel, por si só, contra o Irã, seria capaz de mudar o regime iraniano ou a tendência agora é de resistência com apoio popular e escalada do conflito?

Carlos Eduardo Martins: Olha, a aposta do Trump é essa: a de que certos atos causem grande impacto e comoção, possam infundir o medo, o terror, a paralisia e a confusão, levando à rendição de toda uma estrutura política. Foi exatamente o que ele fez na Venezuela. Só que a realidade do Irã é outra e a posição geopolítica do país é também muito mais sensível. No caso do Irã, há uma revolução islâmica que já tem 47 ou 48 anos, que tem estruturas sólidas, aparatos militares e paramilitares profundamente poderosos e uma dimensão muito importante, que é o messianismo — a crença religiosa e a valorização do martírio como um ato de redenção. Então, acho que a aposta que o Trump está fazendo é muito arriscada e tudo indica que possamos ter um conflito muito prolongado e com riscos para a governabilidade dele. O fechamento do Estreito de Ormuz afeta profundamente a base de alianças internacional dos Estados Unidos, pois afeta a Europa e a popularidade das lideranças políticas europeias. E uma elevação do preço do petróleo também pode impactar a inflação norte-americana, levando a uma posição muito difícil para Trump nas eleições de novembro, para as quais ele não parece bem situado, à medida que as pesquisas revelam uma queda significativa da sua popularidade, hoje em torno de 37% a 38%.

Daniela Longuinho: Professor, os ataques de ontem aconteceram em meio a uma nova rodada de negociações sobre o programa nuclear iraniano. O que explicou essa reviravolta que saiu do campo diplomático e foi para a ofensiva militar com a morte de Khamenei?

Carlos Eduardo Martins: O objetivo do Trump sempre foi produzir uma mudança de regime no Irã. Essa negociação em torno do enriquecimento do urânio é um pretexto para abrir espaço para uma ação mais contundente posteriormente, para distrair a própria liderança iraniana que poderia acreditar em uma saída pacífica. Parece ter sido uma manobra diversionista; tanto que o assassinato de Ali Khamenei ocorre durante uma reunião de trabalho com seus principais assessores. Foi um ato que pegou a liderança despreparada. Trump quer o controle sobre o Estreito de Ormuz para colocar a China e a Índia em uma situação de profunda vulnerabilidade energética. Da mesma forma, quer que o Irã deixe de apoiar militarmente a Rússia na frente de batalha ucraniana. Trata-se do objetivo de controlar um ponto geopolítico estratégico para atingir duas potências que ele considera revisionistas da ordem internacional: Rússia e China.

Daniela Longuinho: É possível estimar o tempo dessa guerra? Os Estados Unidos disseram que a operação está adiantada e Trump sinalizou que concordou em conversar com líderes do Irã. É possível uma negociação neste momento?

Carlos Eduardo Martins: Essa fala dizendo que quer conversar sinaliza uma certa vulnerabilidade. A imprensa norte-americana, como o Washington Post, está dando ênfase crítica ao tema, pontuando que uma guerra prolongada pode afetar a economia dos EUA. No Congresso, os democratas pretendem limitar o poder de Trump para agir sem autorização, o que gera um desgaste para sua liderança. Além disso, a primeira-ministra da Alemanha, Merkel, já declarou que, embora apoie o controle do enriquecimento do urânio, tem reservas quanto à ação militar. Isso indica que os cálculos de uma vitória total em curto prazo parecem não ter base sólida.

Daniela Longuinho: Sobre o poderio militar do Irã, conhecido pelos drones de ataque: houve uma diminuição dessa capacidade após a “guerra dos 12 dias” do ano passado? O que se pode esperar de retaliação nos próximos dias?

Carlos Eduardo Martins: Não se sabe exatamente qual é o poder militar do Irã hoje, pois isso é segredo de Estado. De toda forma, o poder do Irã vai muito além da ação estatal. O Estado iraniano mobiliza uma solidariedade xiita espalhada por vários países. Tivemos a notícia de que a embaixada dos EUA no Paquistão foi apedrejada por centenas de pessoas. Esse poder de convocação está além da capacidade militar convencional e pode se manifestar em atentados de longo alcance, produzindo instabilidade para os poderes ocidentais.

Daniela Longuinho: E quanto aos efeitos para a economia mundial com o possível fechamento do Estreito de Ormuz?

Carlos Eduardo Martins: Essa é uma consequência imediata. Outro ponto crucial é a perda de importância do dólar como moeda de reserva internacional. Os bancos centrais, liderados pela China, estão substituindo o dólar pelo ouro. Uma das formas da China retaliar é valorizando o ouro em relação ao dólar. Possivelmente, estamos caminhando para a quarta grande crise das finanças dos Estados Unidos desde 1929. O indicador para medir isso é o coeficiente Dow Jones-ouro. Uma queda dramática nesse coeficiente indica uma crise profunda que pode colocar em questão o dólar como padrão monetário internacional. Sem uma moeda forte, a máquina de guerra dos Estados Unidos terá dificuldades de funcionar.




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