Após a euforia pós-pandemia e uma correção intensa nos preços, o mercado global de relógios de luxo vive, em 2026, um momento de reorganização estrutural. A discussão deixou de girar em torno de recordes e picos especulativos e passou a priorizar eficiência, liquidez e formação racional de valor.
Em entrevista, o analista Renan Bastos, cujo nome completo é Renan da Rocha Gomes Bastos, explica como a dinâmica do setor mudou nos últimos anos e quais fatores passaram a definir o valor das peças no mercado internacional.
O mercado de relógios de luxo passou por uma correção forte após o boom da pandemia. O que mudou desde então?
Renan Bastos:
Durante o ciclo de alta, o preço era muito influenciado por fluxo e euforia. Havia muita especulação e pouca referência estruturada. Hoje o cenário é diferente. Temos benchmarks, índices e maior padronização de dados monitorando o mercado secundário de forma consistente. Isso reduz o ruído e permite uma leitura mais racional dos preços.
A recuperação observada ao longo de 2025 e a máxima de dois anos registrada no início de 2026 mostram que o setor encontrou um ponto de equilíbrio. Não é um retorno à euforia, mas sim uma estabilização com base mais sólida.
Qual é o papel do mercado secundário nesse novo momento?
Renan Bastos:
O mercado secundário passou a exercer uma influência muito maior na formação de preços. Tradicionalmente ele era visto apenas como um canal paralelo ao mercado oficial das marcas, mas hoje funciona como um verdadeiro mecanismo de descoberta de preço.
Ele reage mais rápido às mudanças de demanda e muitas vezes antecipa movimentos que o mercado primário absorve depois.
Outro sinal de amadurecimento é a redução na dispersão de preços entre diferentes plataformas de revenda. Antes era comum ver grandes variações entre canais. Agora as cotações tendem a convergir para faixas mais estreitas, o que é típico de mercados que caminham para maior institucionalização.
Índices especializados passaram a ganhar relevância nesse setor?
Renan Bastos:
Sim. A consolidação de indicadores como o Bloomberg Subdial Watch Index é um exemplo claro disso. Esses índices acompanham o desempenho de modelos relevantes no mercado secundário e acabam funcionando como referência para investidores e colecionadores.
Quando há menor variação de preço entre canais, mais transparência de histórico e padronização de referências, o mercado deixa de ser apenas relacional e passa a ter lógica de ativo. Isso é um sinal de maturidade.
Essa mudança também altera o perfil do comprador. Aqueles investidores que entraram apenas pelo ganho rápido durante o boom tendem a sair. Permanecem os que observam liquidez recorrente, relevância histórica das peças e consistência da demanda.
Programas de certificação de relógios usados também estão crescendo. Qual o impacto disso?
Renan da Rocha Gomes Bastos:
Os programas de CPO, ou Certified Pre-Owned, são um dos movimentos mais importantes dessa nova fase. Quando uma marca certifica e revende relógios usados diretamente, ela reduz a assimetria de informação e aumenta a confiança do comprador.
Na prática, isso aproxima o mercado secundário de um ambiente mais formal, com garantia, controle e padronização. Não significa o fim do mercado independente, mas eleva o nível de exigência e fortalece a importância da transparência.
A correção de preços ainda pesa sobre o setor?
Renan Bastos:
Ela pesa mais como aprendizado do que como problema. A correção eliminou excessos e retirou referências infladas que estavam ligadas ao fluxo especulativo.
Hoje o mercado recompensa fundamentos.
Liquidez recorrente, disciplina de oferta e relevância histórica das peças são os vetores que sustentam valor em 2026. O hype perdeu espaço para a consistência. Isso mostra que a alta relojoaria entrou em um ciclo mais racional e, possivelmente, mais sustentável no longo prazo.


Deixe um comentário